O PÁSSARO, O RELÓGIO E O ESPELHO! - LEMBRANDO DA INFÂNCIA


Um poema de: Catulo da Paixão Cearense


Um pássaro engaiolado,
  mestre de canto e harmonia,
disse a um relogio cansado
de tanto dar meio-dia.



-Relógio, isto não tem jeito!
Até parece chalaça!
Eu canto, sem ter proveito
e tu trabalhas, de graça !



Queres ouvir um conselho ?
Vê lá se é do teu agrado :
tu te conservas parado,
eu fecho a minha garganta,
fazendo como esse espelho,
que não dá horas nem canta !
Eu já estou desencantado
de cantar sem resultado.



E disse o relógio : - Amigo,
o mesmo se dá comigo.
Mas o espelho disse : - Não !
Nenhum dos dois tem razão.



Nenhum pássaro gorjeia,
sem ter a barriga cheia.
Nenhum relógio tem vida
sem o sustento da corda,
que a corda é a sua comida.



Eu vivo neste abandono,
sem dar despesa ao meu dono.
Sem comer corda ou alpiste,
trabalho e, nesta canseira,
estou sempre retratando,
pois, quer queira, quer não queira,
tenho de ser retratista !


E, desde que fui criado
e comecei a espelhar,
nunca vi um retratado,
que, em mim se vindo mirar,
dissesse : - Muito obrigado!
que é modo civilizado
de se pagar, sem pagar.

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